Reflexões Planetárias

Wednesday, July 05, 2017

O espírito crítico Ocidental

Castoriadis invoca, em favor do Ocidente, o seu espírito crítico que não teme a autocrítica. Este espírito crítico teria emergido na democracia grega.

Ele não existe hoje no imaginário social de qualquer outra civilização. No mundo Islâmico, na China ou na Índia. Precise-se que o imaginário social de Castoriadis traduz uma abertura social eminentemente criativa.

Mas, observo: este espírito crítico não impediu o Ocidente de se enredar no "mito da máquina", traduzido num "desenvolvimento" abusivo que atorpela a nossa integridade social e individual e nos vira contra a natureza.
Para mais, com efeitos agravados por uma capacidade técnica nunca dantes alcançada! Uma outra particularidade do Ocidente que não escapa a Castoriadis, embora ele se centre mais na esfera da sociedade.

A dúvida metódica científica revela espírito crítico, mas o abuso da técnica não resulta de uma suspensão do espírito crítico na novel alianca entre a ciência e a tecnologia?

Mumford observa que faltam os tradicionais travões ao Novo Mundo ocidental maquinista. Não é o mesmo do que dizer que lhe falta espírito crítico efectivo?
Qual o valor do espírito crítico que se fica pelas palavras e que, no essencial, não passa aos actos, deixando-se levar pela "húbris", como diz Bateson?
Tivemos descarados exemplos disso mesmo no lamentável processo da "guerra contra o Iraque".

Enquadrando-a num longo processo de consciencialização humana, pode-se assacar esta incongruência à juventude do espírito crítico, emergente numa civilização capaz de reconhecer os seus erros como nenhuma outra.
Mas não existiria ele em sociedades humanas vernáculas? E, mais importante, para que nos serve o nosso espírito crítico se não nos livrarmos das incongruências a tempo de evitar o colapso?

Castoriadis reconhece um actual "enclausuramento" da sociedade Ocidental, à revelia desse espírito crítico ateniense, de que não sabe como podemos sair... a não ser na reação a uma catástrofe.
Latouche que me parece seguir-lhe as pisadas, imagina o salto para uma outra sociedade "do decrescimento", abandonando frontalmente o paradigma do "desenvolvimento", no pressuposto de que o problema da "insustentabilidade" desta sociedade não tem uma solução meramente técnica. Mas não vejo muita gente disposta a fazê-lo.... a não ser para sobreviver a uma catástrofe.
Douthwaite também não, pois advoga um crescimento qualificado, como alternativa mais viável do que a do "crescimento zero" de Daly.

Para Tainter nem isso será possível, considerando as ligações entre o poder económico e o militar ao nível das relações internacionais, em que qualquer desaceleração económica duma das partes, seria equivalente a um demissivo desarmamento unilateral. Estava-se então na "guerra fria".
A hipótese de Tainter sobre o pendor histórico para o colapso das "sociedades complexas", passando por rendimentos marginais decrescentes, não nos deixa optimistas.

Para Ronald Wright, seguindo a nomenclatura de Tainter, estamos numa locomotiva desenfreada, governados por decisores dinossáuricos, cada vez mais vulneráveis: vivemos num castelo de cartas em risco de se desmoronar.

Algo de novo terá de acontecer antes da catástrofe, para evitar o pior. Poderia partir desse espírito crítico, passando das palavras aos actos mas, como disse, não vejo muita gente para aí virada... entre os que efectivamente "contam". Talvez porque na gestão das suas expectativas, prevalece um balanço positivo da situação apesar dos contras, aceitando alguns sacrifícios enquanto não surge a solução técnica para os actuais problemas que tomam como transitórios.

0 Comments:

Post a Comment

<< Home