Reflexões Planetárias

Saturday, December 09, 2017

Como será o edifício do futuro?

Não faço ideia de como será o edifício do futuro... ou mesmo o futuro!
Espero que não seja um qualquer distópico futuro de "smart bunkers" em "gated comunities".
Descartando este distópico cenário em Portugal, não gostaria de ver mesmo uma passivhaus como uma "machine á habiter", uma "smart house" numa "smart city".
Este é o meu ponto de vista:
Na sua obra seminal "Portugal o Mediterrâneo e o Atlântico", Orlando Ribeiro como Köppen, repartiu o nosso pequeno país em duas regiões climáticas - mediterrâneo e atlântico - reflectidas na arquitectura popular.
Mas hoje a frugalidade tradicional cede à penetração de novos padrões de vida, o envelhecimento da população cria novas exigências e, a rotura dos ecossistemas coloca novos desafios, na intensificação dos fenómenos extremos, na mediterranização e mesmo na desertificação.
Assim eu penso em primeiro lugar em termos de estratégias e não de formas. Estratégias bioclimáticas, nas quais as estratégias de verão tenderão a prevalecer.
Mais, "desenhar com o clima" não chega. Teremos que ir mais longe e "desenhar com a natureza" não só edifícos, mas cidades, regiões, respondendo aos desafios eco-sociais que aí estão.

Foi em síntese nestes termos que respondi à última das quatro perguntas que foram colocadas ao painel constituido por German Velázquez, João Paulo Cardielos, Francisco Moita, o Engenheiro Manuel Duarte Pinheiro e por mim próprio, que teve lugar na V Conferência Passivhaus Portugal realizada o passado dia 29 de Novembro em Aveiro.


Lloyd Aalter, editor da revista "treehugger" que também foi convidado a participar, não pode estar presente mas mandou a seguinte apresentação:

portugal-passive-1080p from Lloyd Alter on Vimeo.

São patentes as suas preocupações eco-sociais radicadas na experiência norteamericana que aliás partilho.

Monday, October 23, 2017

S. Pedro pela mão de Deus

Água e Ar. O tremendo e fremente mar de S. Pedro de Moel que nos enche os pulmões de maresia e a alma de infinito, num encantador dia de outono:


Terra e Fogo. A "catedral verde e sussurrante" é agora um deserto ainda fumegante, vitimada pelo maquinação diabólica de um economicismo ignaro. Um deserto cinzento, desolador que temos de atravessar penosamente para chegar ao oásis de S. Pedro de Moel. O casario (ainda) encastoado no "verde pino" e olhando o mar, glosa apesar de tudo o mote do poeta(*).

S. Pedro é hoje uma ilha paradisíaca por mão divina. Talvez Poseidon.
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* O S. Pedro de que falamos nasceu na "Casa-Nau" de Afonso Lopes Vieira, o poeta de S. Pedro de Moel. Nasceu há pouco mais de um século, ali, "onde a terra se acaba e o mar começa..."

Saturday, October 21, 2017

Catalonia (mais uma vez)

Poderia ter havido diálogo, em vez disso tivemos uma intervenção do estado.
Ada Colau
Extremam-se as posições na Catalunha e entre a Catalunha e o poder central Espanhol.

*

Omnium Cultural, ANC e CUP numa convergência, também ela de extremos, entre o nacionalismo catalão e a esquerda libertária, mobilizam multidões de independentistas exacerbados pela aplicação do artigo 155 da Constituição espanhola de 1978, marcada pelo nacionalismo autoritário do governo central do PP que ainda mantém raízes franquistas. Má política dos dois lados, num mix explosivo que afasta para já as nossas melhores esperanças!

A língua e a história ligam Portugal à Catalunha.
No domínio do românico peninsular, o castelhano introduz-se como uma cunha entre o português e o catalão com maior afinidade entre si, como expressivamente diz Ferran Soldevila.
Ambos lutámos ao mesmo tempo pela independência que nós restaurámos, porque Filipe IV de Espanha escolheu conservar a Catalunha, nela concentrando o seu poder militar. Já lá vão quase quatrocentos anos.
Hoje, gostaria de compartilhar a peninsula Ibérica com uma nação catalã integrada numa federação espanhola democrática. Estas as esperanças para já arredadas.
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*fonte: La Vanguardia (edição electrónica de 21 de Outubro de 2017)

Máquinas do futuro

Captar o CO2 atmoférico, armazená-lo e aproveitá-lo depois em usos multiplos, fechando assim o ciclo da energia, leva a ideia de sustentabilidade ás suas últimas consequências.
Uma máquina instalada na Suiça, perto de Zurich capta o CO2 atmosférico que é depois aplicado em estufas hortícolas, na produção de bebidas carbonatadas ou de combustiveis carbono zero.



Conter as emissões de CO2 é uma das principais medidas de mitigação, mas não é realista considerar que será suficiente para conter o aquecimento global, o que levou o "Acordo de Paris" a assumir que complementarmente haverá que encontrar formas de retirar CO2 lançado na atmosfera... a uma escala épica!
Aqui temos uma das formas de o fazer... numa escala ainda bastante modesta!

Não sendo pelo technical fix reconhecemos que, face à aceleração do Aquecimento Global, máquinas como esta, sendo favorável o seu custo do ciclo de vida, terão o seu lugar integradas no tecido urbano das cidades do futuro e no contexto de um vasto leque de outras medidas de mitigação e adaptação.... se conseguirmos vencer o economicismo estreito, subordinado à eficiência lucrativa das grandes transnacionais que conduziu a esta situação que, na dimensão e multiplicação dos desastres ambientais, parece tomar foros de calamidade pública à escala planetária.

Wednesday, September 13, 2017

É preciso descaramento!

"Emmanuel Macron apela para a solidariedade prometendo liderar a reconstrução da Europa".
Solidariedade de quem? Com quem? Que reconstrução? Que Europa?

"O primeiro ministro grego Alexis Tsipras abraça o presidente francês Emmanuel Macron depois do discurso proferido no Monte Pnix*.
Photograph: Alkis Konstantinidis /Reuters"

Discurso de um oligarca sobre democracia no Monte Pniyx, Atenas, Grécia!
A democracia ultrajada num vergonhoso abraço ao descaramento!
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* "...avançando por entre pinheiros, alfarrobeiras e oliveiras silvestres, aparece de repente, numa clareira, a vista mais rotunda da Acrópole. Frontal, inesperada, cheia de luz própria, erguida sobre um bosque que a empurra com força para cima, para o céu. Este é o lugar a que os antigos atenienses chamavam As Rochas, uma esplanada no alto utilizada para reuniões provavelmente logo no começo da história de Atenas. Hoje, um lugar quase sempre vazio, um estranho oásis de ar e de pedra, algo como uma cratera sobranceira à cidade. Este é o espaço onde se reunia a assembleia, o conjunto dos cidadãos com voz e com voto. Se há um lugar concreto onde nasceu a democracia, esse lugar foi aqui, nas Rochas de Pnyx". (Pedro Olalla, Grecia en el aire, Ed. Alcantilado, Barcelona 2015).

Friday, September 08, 2017

Giant Steps

Os "New York Voices" com a Orquesta Metropolitana dos Países Baixos. Uma conversa entre um conjunto de jazz e uma orquestra sinfónica que faz lembar o Concerto para Jazz-Band e Orquestra que Rolf Lieberman compôs há sessenta e três anos. Sim, o "tempo" é outro!



Um contagiante tributo a John Coltrane!
A vertiginosa improvisação afasta-se, salvo pontualmente e no solo de sax, da antológica progressão harmónica de Coltrane, mas o tom inicial e o tempo são exatamente os mesmos!
It blew me away!
Giant steps in giant shoes!

Wednesday, July 05, 2017

O espírito crítico Ocidental

Cornelius Castoriadis invoca, em favor do Ocidente, o seu espírito crítico que não teme a autocrítica. Este espírito crítico teria emergido na democracia grega.

Ele não existe hoje no imaginário social de qualquer outra civilização. No mundo Islâmico, na China ou na Índia. Precise-se que o imaginário social de Castoriadis traduz uma abertura social eminentemente criativa.

Mas, observo: este espírito crítico não impediu o Ocidente de se enredar no "mito da máquina", traduzido num "desenvolvimento" abusivo que atorpela a nossa integridade social e individual e nos vira contra a natureza(1). Para mais, com efeitos agravados por uma capacidade técnica nunca dantes alcançada! Uma outra particularidade do Ocidente que não escapa a Castoriadis, embora ele se centre mais na esfera da sociedade.

A dúvida metódica científica revela espírito crítico, mas o abuso da novel aliança entre a ciência e a tecnologia não resulta de uma suspensão do espírito crítico ?

Lewis Mumford observa que faltam os tradicionais travões ao Novo Mundo ocidental maquinista. Não é o mesmo do que dizer que lhe falta espírito crítico, não subordinando a eficiência operativa aos princípios axiais do bem, do belo e da verdade? E qual o valor do espírito crítico que, ficando-se pelas palavras nos juizos de valor, não passa aos actos deixando-se levar pela "húbris", como diz Gregory Bateson?

Enquadrando-a num longo processo de consciencialização humana, pode-se assacar esta incongruência à juventude do espírito crítico, emergente numa civilização capaz de reconhecer os seus erros como nenhuma outra, no entender de Castoriadis.
Mas, insisto, para que nos serve o nosso espírito crítico se não nos livrarmos das incongruências a tempo de evitar a queda no abismo?

Castoriadis reconhece um actual "encerramento do sentido" nas sociedades ocidentais, à revelia desse espírito crítico ateniense de que não sabe como podemos sair, a não ser face a uma catástrofe eminente. Poderá ser uma catástrofe nuclear ou o aquecimento global irreversível, hipóteses suicidárias que teimamos em perfilar no horizonte próximo, nesta "corrida para o abismo".

Serge Latouche que me parece seguir-lhe as pisadas, imagina o salto para uma outra sociedade "do decrescimento", abandonando frontalmente o paradigma do "desenvolvimento" antes da catástrofe, no pressuposto de que o problema da "insustentabilidade" desta sociedade não tem uma solução meramente técnica.
Richard Douthwaite também não, pois advogava um crescimento qualificado, como alternativa mais viável no actual "statuo quo" capitalista do que a de Latouche ou mesmo do que a do "crescimento zero" de Herman Daly.

Para Joseph Tainter nem isso é viável, considerando as ligações entre o poder económico e o militar ao nível das relações internacionais, em que qualquer desaceleração económica duma das partes, seria equivalente a um demissivo desarmamento unilateral. Estava-se então na "guerra fria", mas hoje a questão do "equilíbrio de poderes" continua a estar na ordem do dia.
A hipótese de Tainter sobre o pendor histórico para o colapso das "sociedades complexas", passando por rendimentos marginais decrescentes, não nos deixa muito optimistas.

Para Ronald Wright, seguindo a nomenclatura de Tainter, estamos numa locomotiva desenfreada, governados por decisores dinossáuricos. Cada vez mais vulneráveis, vivemos num castelo de cartas em risco de se desmoronar.

Neste quadro catastrófico de mudança civilizacional, urge a libertação do "espírito crítico" na coalescência de comunidades, movimentos e grupos de cidadãos descontentes, dispostos a extinguir os dinossauros e mudar de vida. Na pior das hipóteses, ainda assim, "... há muita esperança, uma infinita soma de esperança - mas não para nós"(2).
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(1) Para Castoriadis, as sociedades modernas vivem numa tensão bipolar."Desde há séculos que o Ocidente moderno se encontra animado por dois imaginários sociais que estão em oposição total, mesmo que se tenham influenciado reciprocamente: o primeiro é o projecto de autonomia individual e colectiva, a luta pela emancipação do ser humano, tanto intelectual como espiritualmente efectiva na realidade social; o segundo é o projecto capitalista demencial, de uma ilimitada expansão de um pseudo-domínio pseudo-racional que desde há muito deixou de dizer apenas respeito ás forças produtivas e à economia para se tornar num projecto global (desta forma ainda mais monstruoso) de um domínio absoluto dos dados físicos, biológicos, psíquicos, sociais e culurais." É na primeira significação "política"do imaginário moderno que situo o "espírito crítico" associado aos "princípios axiais" não no sentido dogmático tradicional mas no contexto da polis. Identifico a segunda com o hubrístico "mito da máquina" de que comungam o capitalismo e o marxismo-leninismo, como as duas faces da mesma moeda: o darwinismo social materialista centrado no poder.
(2) Franz Kafka

Um simples muro de tijolo...

Uma manhã fria de Inverno. O sol não chega para compensar o vento cortante que sopra de norte. No terreno descampado, apenas um muro,
um simples muro de tijolo. Mas, na sua escassa área de influência, o nosso pequeno muro divide o terreno em dois, criando um contraste sensível entre o lado norte, em que acentua a agressividade do clima e o lado sul que pelo contrário o adoça. Quedo-me pelo lado sul, encostado ao muro, gozando o sol, abrigado do vento cortante que sopra de norte.

Uma cálida tarde de Verão. A brisa de norte não chega para compensar
o sol que começa a declinar.
O mesmo terreno. O mesmo muro simples de tijolo divide o terreno em dois, criando um sensível contraste entre o lado norte em sombra e o sul ensolarado.
Desta vez escolho o lado norte, gozando a brisa fresca, protegido do sol.
Um muro, um simples muro de tijolo... um traço na paisagem que não chega a criar um espaço interior separado do exterior, interfere no clima criando microclimas!

Se não deixarmos essa interferência ao acaso, um edifício, um espaço edificado, pode aproveitar condições climáticas favoráveis e defender-nos de condições adversas, contribuindo para o nosso bem estar.

Thursday, June 15, 2017

A Torre do Inferno

Já lá vai o tempo em que Londres estava a salvo da construção de torres, por um principio simbólico: nada podia impedir a vista da cúpula da Catedral de S. Paulo de qualquer ponto da cidade.
Vindas as torres, com elas regressou agora o flagelo do fogo dantesco que persiste na memória londrina desde o Grande Incêndio de 1666 que o Museum of London não se cansa de relembrar.
Torres e torres se ergueram! Entre elas, a "Torre do Inferno" era, até ontem, a Trellick Tower... não por ser combustível mas por ser insociável! O infeliz testemunho passou agora para a Grenfell Tower. As imagens dantescas do incêndio que ontem se declarou, mostram-nos o edifício como uma tocha, envolvido num manto de fogo e fumo que rapidamente se propagou pelas fachadas, dificultando decisivamente a reacção ao incêndio: um bombeiro declarava estupefacto que a água que jorrava das potentes agulhetas se evaporava antes de alcançar o edifício; uma missão impossível!


A parte fraca está pois na fachada. Já na tragédia das "torres gémeas" de Nova Iorque esteve na fachada. Numa inovadora "solução de fachada" para a estrutura resistente que tornou o edifício vulnerável a um, aliás algo imprevisivel, ataque terrorista.

Na Grenfell Tower, a vulnerabilidade está na fachada, ao que parece tornada combustível numa recente (e paradoxal!) "reabilitação". O tipo de contrato "concepção-construção" levou à incorrecta aplicação de paineis sandwich para embaratecer a construção que facilitou a rápida propagação do incêndio... ao abrigo de uma regulamentação que, pelos vistos, (ainda) não se preocupa com a combustibilidade interna dos novos materiais compostos! Afigura-se-me ser esta a causa primordial da tragédia, pois não só facilitou a propagação do incêndio mas também dificultou o combate ás chamas.

O inferno das torres e o "pesadelo do ar condicionado" são , a meu ver, resultantes do abuso do progresso tecnológico, na desmesura de uma sociedade invertebrada em que até a "arte como a ciência se desintegrou em actividades separadas"(Herbert Read, The meaning of art). Como o são, na resposta ao dilema energético-ambiental, os "edificios doentes" - casas supervedadas, com baixas taxas de infiltração em prejuízo da qualidade do ar - e, estas "torres do inferno" - grandes edifícios de costas para o clima, cada vez mais isolados pelo (e do) exterior, seja em fachadas ventiladas, seja com paineis sandwich ou sistemas compósitos (tecnicamente designados por ETICS). Estes materiais tendem a generalizar-se em Portugal na sequência da regulamentação energética, pelo que é oportuno atentar nos estudos que já existem sobre o seu comportamento e introduzir pormenores de segurança que, sem dúvida, irão complicar a sua aplicação.