Reflexões Planetárias

Thursday, October 04, 2012

Quem deve pagar a austeridade?

Tranduzo na integra um oportuno artigo de Myret Zaqui, publicado na revista Bilan que fala da capitulação de Portugal e da Europa face ao ataque dos mercados financeiros, com números e nomes que sublinho:

"Nas últimas semanas, vimos as populações manifestar-se contra os malefícios da austeridade, seja na Grécia, em Espanha ou em Portugal, sobre o fundo de uma crescente eurofobia. No espírito de qualquer um, a culpa é da «austeridade».Mas o verdadeiro problema, não é a austeridade. É o de quem paga a factura desta austeridade. Os sacrificados são a massa de pequenos e médios assalariados(1) da zona euro que formam o tecido da economia real. Eis o trágico quiproquo: os que pagam não são os principais responsáveis pela crise. Jamais os povos tiveram que empobrecer num mundo tão rico, tendo a sua prodigalidade tão pouco a ver com a crise. É a este título que a austeridade é ilegítima. Daí o profundo mal estar. Esta crise tem origem nos desgastes colossais da especulação financeira sobre a economia real e sobre os orçamentos dos Estados. Estes últimos tiveram que encaixar os grandes choques recessivos e fiscais da bolha bolsista e imobiliária vinda dos Estados Unidos, que desencadeou, por via do mimetismo monetário, bolhas idênticas em Espanha, em Inglaterra e na Irlanda. As mesmas técnicas especulativas importadas permitiram à Goldman Sachs enriquecer, vendendo à Grécia uma solução para disfarçar o seu endividamento. As tensões actuais vêm da percepção de que a riqueza é desviada, tendo as populações suportado primeiro o resgate dos bancos, para depois suportar o resgate dos Estados... que tinham salvo a finança privada.
Quando os Portugueses marcham contra o "roubo dos salários e das pensões", eles apercebem-se que estão a ser enganados.

E com razão. Assim, os mesmos 5 mil milhões de euros que Lisboa exige que os Portugueses economizem em 2013 correspondem ao que os fundos especulativos arrecadaram em 2011, degradando a dívida de Portugal e dos seus vizinhos. Desde 2011, com efeito, o desvio da riqueza opera-se por via de ganhos privados realizados com a compra de dívidas europeias. Em 2011, os fundos especulativos geraram as suas melhores receitas com a queda provocada das obrigações da zona euro. Segundo o CNBC,os fundos britânicos Brevan Howard, Caxton Associates e GLG Partners ganharam, só nos meses de Agosto a Setembro de 2011, 3 mil milhões de dólares, ou seja metade da austeridade que deverá consentir Portugal em 2013... E estamos a falar de três fundos em algumas semanas. Seria preciso acrescentar ainda o que ganharam, apostando contra a Europa, os fundos de Paul Tudor Jones, Soros Fund Management, Brigade Capital, Greenlight Capital et SAC Capital Management, mas também John Paulson, tal como os principais bancos intermédios nestas estratégias que são os Goldman Sachs, Bank of America e Barclays. Criaram-se imensas fortunas. Estes ganhos provêm da queda do valor das obrigações gregas e dos países vizinhos, causadas por vendas maciças a descoberto ("short selling"). O dinheiro arrecadado nestas apostas de venda é o mesmo que é subtraído aos governos pela forte subida das taxas de juro assim provocada, induzindo o seu estrangulamento financeiro. Com a austeridade, Atenas, Lisboa et Madrid exigem aos assalariados europeus que cubram as perdas colossais que estes governos sofreram com a transferência de uma parte das suas riquezas para a finança especulativa. Esta última permitiu assim que os fundos públicos passassem para "traders" milionários.

Fortunas colossais
Os ganhos individuais que pode gerar o "short selling" ultrapassam a nossa compreensão. O americano John Paulson embolsou, só ele, 3 mil milhões de dólares en 2007 apostando no imobiliário americano. Antes dele, George Soros ganhou pessoalmente 2 mil milhões em 1992 fazendo cair a libra esterlina. Os "hedge funds" ganham mais do que paises inteiros. Em 2006, 25 especuladores (como Jim Simons e Kenneth Griffin) tinham embolsado pessoalmente o equivalente ao PIB da islândia (15 mil milhões de dólares). Há quem recuse por princípio estabelecer qualquer ligação entre as fortunas acumuladas pelos "hedge funds" que especulam com as dificuldades da Europa e a austeridade em curso: isso é esquecer noções financeiras básicas. É por demais evidente que os ganhos obtidos pelos actores financeiros equivalem à austeridade que é hoje suportada pela população. Os que deviam recapitalizar os Estados não são senão os que os arruinaram. Pelo menos deviam contribuir na proporção das perdas económicas e do endividamento que ocasionaram. Mas como poderá a Europa recuperar este dinheiro, ela que tentou em vão regulamentar a especulação?"

Pois, digo eu: Quem deveria pagar a austeridade seriam aqueles que a provocaram : os mercados financeiros... se imperassem princípios morais e não a lógica do ganho, a lei do mais forte. Mas não. São eles que continuam a ganhar com ela, agravando dia a dia a austeridade em que nos estão a afundar, com a conivência de um governo sitiado!
Em Portugal, estão a operar no mercado da dívida pública os seguintes "mercados": Banco Espirito Santo, SA; Banco Santander; Barclays Bank, plc; BNP Paribas; Caixa Banco de Investimento, SA; Citigroup Global Markets Limited; Crédit Agricole CIB; Credit Suisse; Deutsche Bank, AG; Goldman Sachs International Bank; HSBC France; ING Bank, NV; Jefferies International Limited; Morgan Stanley & Co International; Nomura International Société Générale; The Royal Bank of Scotland, plc; UniCredit (HVB); BPI, SA; Caixa Central de Crédito Agricola Mútuo; Commerzbank; Millennium bcp. (Fonte: IGCP)
Bancos. Quantos deles estão a aproveitar o infame artigo 104º do Tratado de Maastricht, ganhando com a diferença de juros entre os que pagam pelo que recebem emprestado do BCE e os que recebem do que emprestam ao Estado português?
E alguns destes bancos são portugueses! Incluindo uma caixa de crédito agrícola mútuo!
Mas então e o financiamento das nossas empresas industriais e agrícolas? Por este caminho, o PIB não parará de diminuir e a dívida de aumentar!
É o mercado a funcionar, dizem os sacerdotes do mercado! Mas, dizemos nós, é urgente que funcione a democracia, não só em Portugal mas em toda a Europa, para sustar este desastroso processo de regulação em tendência em que nos estamos a deixar arrastar para o colapso!
______________________________________________________________
(1) Eu acrescentaria as PMEs

1 Comments:

At 10:53 AM, Blogger Jo said...

Boa reflexao. Nao sabia que havia tantos bancos envolvidos na "divida" portuguesa; de qualquer forma acrescento umas notas importantes:
- o facto de os bancos se "envolverem" nos assuntos de estado como conselheiros, segundo a minha opiniao nao parte uma ingenuidade dos estados nem de uma "ma gestao" mas de os interesses financeiros estarem profundamente envolvidos na politica (um bom exemplo dessa "mistura" 'e dado pela GS que tem pessoas em varios paises. 'E ai que a solucao da Islandia (ou qualquer outra com "listas abertas" como os piratas) me parece a unica - 'e preciso "limpar" o parlamento de pessoas que ou proveem dos bancos ou estao profundamente ligadas aos seus interesses (e.g. Passos Coelho)
- outra nota 'e que o GS nao 'e apenas intermediario no processo de especulacao, mas sao eles proprios especulativos uma vez que sao ao mesmo tempo banco de affairs e teem os seus proprios fundos de investimento: uma contradiçao, que aparentemente nao 'e ilegal, e tambem nao 'e desmotivadora para as pessoas que se aconselham com eles e sao ao mesmo tempo "roubadas" (isto inclui estados)
- ao criarem o seu mundo de "bonus extraordinarios" a margem da crise, eles tb teem uma consequencia mt negativa na sociedade. Tudo 'e privado para os funcionarios da GS: da saude a educacao (alimentado pelos seus "gordos" salarios e bonus). Sendo assim, nao admire que eles (e toda a classe politica associada) lutem para destruir o estado social.
Junto me ao Roche para reflectir que a muitos dos acontecimentos que teem assombrado o mundo nos ultimos anos, nao so sao consequencia dos bancos, mas de um em particular. Temos de focar nos em "derrubar os seus alicerces", enfraquece lo, e sobretudo tira lo dos bancos da politica. Isto por si, ja seria um grande progresso!

 

Post a Comment

<< Home